Se tá dificil de achar algo que anime,
não subestime o poder de dar um role ouvindo A Love Supreme.
As cenas da rua fazem um filme, cores, fatos,
formas tomam um ar sublime. Bêbado equilibrista,
que faz do asfalto sua pista (ou ringue de pugilista),
pomposo, enpina a crista. O adversário invisível é mais forte,
aposto. Crianças correndo mais parece um terremoto.
Vem andando, gingando, pela quadra dos cortiços,
o contorno perfeito do moleque mestiço,
com vício de ler pixo no muro ou topo do céu.
Um senhor, me cortejando, tira o chapéu.
Roda de tia, mãe, filha (e até a mais velha da família) ria,
esquecendo ali que ainda vivem a mais-valia,
que vai acabar um dia como tudo que existe.
Isso não me deixa triste.


(REFRÃO):
Bela: como a cena do Sol nascendo no oceano
Fera: como a besta que se apossa da cabeça de um insano
Fera: como a marcha à morte num vai-e-vem comprimido
Bela: como a carta de declaração do amor correspondido.


Então prolifera, fera, o amor nessa esfera,
sem tempo pra espera, senão já era.
Bela, como a vida na infância,
o tempo sem ganância passa por ela.
Criança levada brincando calada de vaca amarela.
E então chega o dia, junta a rebeldia junta sua galera.
Prontos pro combate, ninguém quer empate,
então bate de frente com a Fera, que dilacera,
distorce seus planos, consome os anos,
te deixa na espera de uma vida melhor, sem sangue e sour,
que nunca supera os problemas, as contas,
as broncas e outras responsas que ninguém coopera,
até que nasce seu filho trazendo o brilho,
a vida volta a ser ...


(REFRÃO)


Então prolifera, fera, o amor na atmosfera,
sem tempo pra espera, senão já era.
Pára pra pensar: a vida é tipo o mar...
toda vez que a gente olha tá diferente.
Não mais que de repente. uma onda vem te derrubar.
Quando vê, comeu areia e só te resta andar pra frente.
Ao contrário, às vezes se sente pesado a la jamanta,
a crista te levanta. Afinal quem canta seus males espanta,
no almoço ou na janta, molha a garganta com guaraná ou fanta,
aí se dá conta: entre um teco de torta de tomate com ricotta e outro
- que no fim da fita, flutuar como pluma é que importa,
mas sem perder a noção do pé no chão,
assim é mais difícil se afogar em meio à tarde amarela.
Taxam de cadela, eu tenho amor puro por ela,
não quero ver a vida se esvair num duelo,
filmado em preto e branco, ao fundo um som de violoncello.


(REFRÃO)


Então prolifera, fera, o amor nessa esfera,
sem tempo pra espera, senão já era.
Então prolifera, fera, o amor na atmosfera,
sem tempo pra espera, senão já era.

Vídeo incorreto?